No começo era normal.Eu andava com elas pra lá e pra cá. Divertia-me a valer.
Em casa, na escola, na rua…
E eu sempre fui muito popular, então nunca me faltavam opções. Eu organizava tardes com chá, jantares, festas. E todas vinham, sorrindo como sempre.
Uma ilusão de felicidade, que eu continuava a simular.
Até que eu me cansei.
O porão aqui de casa é bastante escuro, úmido e fétido. A única luz mal ilumina o balcão que o papai usava para fazer concertos e trabalhos manuais. Ele guarda as ferramentas dele, do lado da máquina de lavar da mamãe.
A primeira vez a gente nunca esquece.
Eu a trouxe aqui para baixo, e brincamos um pouco perto do balcão. Eu a deixei ali, e fui pegar algumas ferramentas. Peguei um alicate, alguns pregos, uma chave de fenda e o mais legal: Um martelo pneumático.
Com um movimento rápido e preciso, cravei a chave de fenda na cabeça dela. Ela nem se moveu, nem disse nada. Ficou ali imóvel inanimada.
Mas a sensação que eu senti foi maravilhosa, não sei explicar direito.
Coloquei as coisas no balcão, e fiquei só olhando por um pouco. Admirando o que eu tinha feito. Até que eu resolvi apimentar as coisas.
Primeiro tirei a chave de fenda.
Usei os pregos e o martelo para prender os braços e as pernas ao balcão. Foi mais fácil do que eu imaginava.
Em seguida, usei o alicate para tirar o cabelo.
Foi a parte mais divertida, sem brincadeira! Os cachos dourados iam se espalhando pelo porão, iluminando o lugar de uma maneira formidável.
Ter os cabelos retirados assim deve ser uma sensação e tanto!
Quando terminei com ela, já tinha me cansado. Estava irreconhecível.
Nunca mais poderia brincar com ela.
Tudo bem, nunca gostei muito dela. Achava muito falsa! Ninguém podia ter cachinhos dourados tão bonitos iguais aqueles.
O dia seguinte eu me senti um pouco sozinha, e entediada. Resolvi fazer de novo.
Sem muito esforço, trouxe mais uma lá pra baixo.
Dessa vez eu me diverti usando aquela pistola de pregos super irada!Com o tempo… Isso foi virando uma rotina.
Até que mamãe desceu lá para lavar algumas roupas e descobriu tudo. Ta certo que eu sempre tentava limpar a bagunça, mas sempre fica algum pedacinho pra trás.
A mulher ficou insana. Teve crise de choro e tudo mais.
Deu-me uma bronca e me colocou de castigo. Naquela altura, já tinha feito umas nove vezes. Lembro da Susy, da Polly… Essas foram as mais interessantes.
Quando papai chegou do trabalho, eles discutiram de quem era a culpa e mais um monte de coisa.
Decidiram que eu tinha que ir ver um psicanalista. Eu fui, mas achei uma grande baboseira, aquele idiota me tratando feito criança.
Não fiz de novo durante todo o verão.
Mas eu havia percebido, que só me divertia a valer quando eu brincava no porão.
Mas como eles haviam me proibido de descer lá, eu resolvi brincar no meu quarto mesmo. Ali ninguém ia desconfiar. E como sempre estava bagunçado, não iam reparar nada estranho.
Eu sei que as paradas legais estão no porão, mas eu me virei bem com os utensílios de cozinha. Acho que eu tenho um talento pra coisa.
Mas sabe como é, as vezes a gente extrapola. E eu sei que eu exagerei quando resolvi amarrar três juntas lá em cima, e botar fogo.
Na minha cabeça, a coisa parecia insanamente divertida, além dos limites.
Elas me olhavam paralisadas, seus rostos congelados feito plástico, sem expressão, sem sentimento, como perfeitas vacas hindus. E eu odiava isso!
Mas descobri no fogo o poder de mudar as coisas.
Enquanto elas queimavam, eu finalmente via algo em seus rostos. Desespero, dor, agonia, e aquela apatia escorriam junto com a pele que derretia.
Só que o cheiro peculiar da fumaça se espalhou pela casa, e mamãe veio correndo e pirou mais uma vez ao ver as coisas como estavam.
Tentou apagar o fogo de qualquer forma, mas já era muito tarde… Elas não tinham salvação.
Mamãe me olhou como se eu fosse uma aberração. Mas era tão divertido!
Ela jogou tudo no lixo, e me colocou de castigo. Eu não liguei.
Então meus pais tomaram medidas drásticas, e daquele dia em diante, eu nunca mais ganhei bonecas de presente.
Fim