Rancune pt. 1
Rieux foi impetuoso, e investiu dando um rápido porém firme passo a frente, enquanto sua arma descia cortando o ar em direção de seu oponente.
O golpe, tinha graciosidade, mas muita potência e sem dúvida causaria um ferimento devastador em Masson, se esse não tivesse aparado o golpe com sua espada, e se lançado com o impulso das pernas para trás.
Não foi tempo de se recompor, outro vez a lâmina de Rieux se estendia vertiginosamente à altura de seu peito, rechaçada por um veloz voleio, seguido de um contra-golpe desajeitado que foi facilmente esquivado.
Rieux lutava com calma e assertividade, apesar da voracidade de seus ataques, enquanto o corsário Masson, bastava-se, com certo desânimo, a evitar ser ferido e a desferir um ou outro golpe apenas por praxe.
Essa indiferença atingia o rígido cavaleiro, mais forte do que qualquer surra, e o impulsionava a atacar cada vez mais forte. Masson, obrigado a usar de toda sua agilidade nas pernas, se afastava cada vez mais a cada golpe.
Mas pagou caro ao pensar ter identificado um padrão nos ataques sequenciais, quando Rieux, notando que ele erguia a guarda, desferiu com um golpe um corte superficial em sua barriga.
Sua camisa branca e larga rasgou-se com o golpe, e enrubesceu com o sangue que dele vertia. O ardor fez com que Masson titubear para trás, e levar a mão a altura do ferimento.
Sua expressão partiu do indiferente ao passional em instantes, e como que assumindo nova personalidade atacou seu rival com fôlego renovado.
Agora era a vez de Rieux utilizar de todas as suas habilidades como espadachim, para evitar ser ferido, pelos golpes lançados de diversas formas pelo ensandecido Masson.
Apesar da fúria dos ataques, ele mantinha a mesma postura calma e prudente e não se desesperava, mesmo quando sua guarda esmorecia e a lâmina quase lhe cortava a face. Recompunha-se e contra-atacava com prudência, e precisão, desferindo ainda mais dois golpes no braço esquerdo de seu atacante.
Em uma das muitas investidas, as espadas se enroscaram em uma disputa de força. Masson se aproveitou dessa situação, e rapidamente, pulando de lado junto a Rieux lhe desferiu um golpe com o cotovelo no nariz, derrubando-lhe o chapéu no chão do cais.
O sangue verteu em um fio grosso, mas foi limpo com a luva, enquanto ambos se afastavam para se reavaliar.
A indumentária do Capt. Rieux já não era a mesma do início do embate. Seu colete havia sido retalhado em algumas partes pelo fio do sabre inimigo, e seu cabelo negro, caia em fios largos pela sua testa alva. O nariz, um bocado inchado ainda mostrava sinais de sangue e sua respiração era mais ofegante.
Masson por sua vez, estava deplorável. Sua camisa, lançada ao chão enquanto se recompunham, estava em pedaços.
Seu corpo ostentava diversas cicatrizes antigas, e três vivas e novas, ardendo ainda latentemente. Sua postura debochada mais parecia agora com um animal enfurecido.
Levantou os cabelos longos que quase lhe cobriam toda a face, enquanto buscava dentro de si um pouco mais de escárnio para insultar seu oponente.
-E a mãe, está boa? – E sorriu largamente, enquanto jogava os cabelos para trás.
Rieux, respirou fundo e batendo o pé no chão, reassumiu a postura inicial, com a espada como um estandarte a sua frente. Avançou e trocaram mais alguns golpes, até pararem novamente, quando foi a vez do capitão falar.
-Está bem! E sua irmã, sente minha falta? – Soou sério, mas não pode evitar sorrir após fazê-lo.
Masson que tomou a iniciativa dessa vez. E a troca de golpes perdurou por mais um tempo.
A essa altura, o duelo já havia chamado a atenção dos moradores e trabalhadores locais, que após certa relutância, chamaram os guardas locais.
O apitos soaram ao longe, e se aproximavam junto com passos apressados dos homens da guarda.
-Parados aí! – Disse o mais velho deles. Homem parrudo, não muito alto. Apesar do quepe, era previsível que era careca, mas cultivava um bem cuidado bigode já esbranquiçado pelo tempo. Estava amparado por mais dois guardas, bem mais jovens, mas um tanto quando inexpressivos. Pareciam assustados. – Vocês perturbam a ordem, e ordeno que parem!
Rieux e Masson baixaram as guardas.
Se entreolharam e com um riso cansado reverenciaram cada um a seu modo, mas quase que simultaneamente os guardas.
Masson baixou a espada, enquanto Rieux embainhava a sua e tomava a frente, falando cansada mas respeitosamente.
-Sou Capitão Rieux Rancune da 17ª Legião, e este é meu irmão Masson. Peço desculpas pelo tumulto. Somos de uma família de costumes berrantes, não é irmão? – Buscava o chapéu ao chão, enquanto Masson sorria bobamente para os guardas.
-Sim, sim Rieux. Vocês podem ir agora… O show acabou! – Caminhava junto a Masson, lhe envolvendo com um abraço. – Está tudo bem aqui, viram?!
Desconcertados, e sem entender muito bem o propósito daquilo tudo, mas sem autoridade para interferir nos assuntos de um superior de tanto renome, os guardas se bastaram em dispersar a multidão curiosa que ali se acumulava.
-Precisamos conversar. – Rieux disse quando a atenção já havia sido desviada deles.
Masson conduziu Rieux em direção a seu barco atracado, enquanto o ajudava a acertar o chapéu na cabeça. Caminhavam lado a lado, como se o duelo ferrenho de minutos antes nunca tivesse acontecido.
-A propósito, Marie sente sim muito sua falta… Ela nos preparará o café enquanto conversamos.
Continua…