O dia foi normal no escritório hoje.
E por normal você deve entender que o dia foi muito tedioso e se arrastou lentamente até o fim do expediente, excluindo momentos raros onde a mente vagava e podia rir de mim mesmo por motivos bestas.
Para complementar, um desfalque imprevisto para o dia seguinte. Nada bom.
De cabeça quente, consegui resolver o problema nas coxas. Mas muito precisava chegar em casa, colocar alguma coisa no estomago, e tomar um trago qualquer.
E queria chegar em casa rápido! Com o carro isso seria possível, por que mesmo sendo um fodido da porra, agora tinha um carro e não me leve a mal caso você utilize transporte público, mas a menos que você seja um sadomasoquista, é impossível gostar de ter de circular de ônibus.
Mas como minha vida segue o caminho tortuoso entre as teorias do caos e as leis de Murphy, justo hoje, o carro estava no concerto.
Tudo bem, antes de fechar a porta, corri nas minhas coisas. Peguei um Bukowski.
Eu não ando mais de ônibus sem algo do Bukowski para ler.
Fechei a jaqueta e caminhei cantando “no milk today” até o ponto de ônibus.
Lá, uma penca de pirralhos conversando sobre desinteressâncias, enquanto macaqueavam irritantemente.
Saquei PULP ali mesmo.
Capítulo 10: Salte o resto do dia e da noite aqui, não houve ação, não vale a pena falar.
Lindo! Capítulos curtos, é isso que eu quero.
Mas a minha realidade era um bocado diferente do que o capítulo sugeria, não podia saltar o resto da noite. Não ainda.
Com sorte o ônibus não tardou a chegar, e felizmente estava vago.
Quase ninguém ali.
Agradeci ao passar a roleta, olhei até o fundo do ônibus, onde um gordo ocupando dois bancos comia amendoins.
Me sentei logo na frente.
Fechei a janela, pois fazia bastante frio.
Minha mente ficou totalmente absorta na leitura, e a distância foi sendo consumida, tudo como o planejado. Tudo perfeito!
Até que ele subiu.
Passou por mim, e se sentou no banco logo atrás. TUDO VAGO e o babaca se senta logo atrás de mim!
Não ia notá-lo, não até o momento em que ele ligou o rádio am/fm do seu celular.
Senti arrepios em lugares nunca dantes imaginados.
A fome deu lugar a um embrulho que pulsava na batida de “give me sexy back”.
Foi então que me perguntei, “o que os personagens do meu camarada Hank fariam numa situação dessas?”
Um sorriso intrépido tomou a minha face, enquanto a resposta veio clara como um farol alto na mão oposta.
E eu me levantei irresoluto e me sentei ao lado do rapaz.
Ele me olhou estranhando a aproximação, mas eu continuava sorrindo enquanto acenava com livro na mão.
Limpei a garganta de um pigarro e voltei a leitura do livro. E com tudo planejado na cabeça eu li, em voz alta e de maneira enfática parte do Capítulo 15.
E enquanto lia, tentando me sobrepor a batida chiada vinda do celular, o garoto me olhava perplexo!
E eu não via a hora dele me interromper, até que eu fui subindo o tom até o momento em que veio…
- EI! Você é maluco?!-
Parei de ler e retruquei. – Você é?!
- Sai daqui seu idiota!
- Idiota por que?! Estou fazendo como você, por que achei legal a sua idéia de mostrar pra todo mundo suas preferências musicais. E eu estava ali lendo e pensei. COMO POSSO SER ASSIM EGOÍSTA?! Dai vim ler aqui pra você também. Não é legal?
-Ah…
Sem mais ele colocou o fone de ouvido e a música parou.
-Obrigado.
Me levantei e me sentei ao fundo.
Só haviam migalhas de amendoim. O ponto estava próximo.
Meu coração doia um pouco. Mas estava bastante satisfeito com o que tinha feito.
Cheguei em casa a tempo de pegar a comida ainda quente, abrir uma garrafa de vinho e achar que a noite estava salva.